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Ana Lívia de Souza Benedicto

Eng. Hídrica

01/11/2025
31/10/2027

Intensificação da fermentação escura da fração orgânica de resíduos sólidos urbanos mediada por transferência direta interespécies de elétrons (DIET) com aditivos condutivos de ferro e carbono

A fração orgânica dos resíduos sólidos urbanos (FORSU) representa uma parcela  significativa dos resíduos urbanos brasileiros, sendo majoritariamente destinada a  aterros sanitários, o que gera emissões de gases de efeito estufa (GEE), como metano  e outros gases (Ghimire et al., 2015; de Souza et al., 2025).

A fermentação escura (dark  fermentation, DF) é uma rota promissora para converter FORSU em biohidrogênio  (bioH₂), ao mesmo tempo em que estabiliza a matéria orgânica, utilizando reatores  relativamente simples, em condições mesofílicas e com tempos de retenção mais  curtos (Ghimire et al., 2015; Almeida; Santana, 2023). No entanto, a DF apresenta  limitações no rendimento teórico de H₂ (geralmente abaixo de 4 mol H₂ mol⁻¹ de  glicose equivalente) e elevada formação de ácidos graxos voláteis (AGVs), o que leva à  acidificação do meio e à redução da eficiência global do processo (Ghimire et al., 2015;  de Souza et al., 2025). Estudo recente do grupo avaliou a DF e a fotofermentação  sequencial de FORSU do restaurante universitário da UNIFEI, inoculada com lodo de  reator UASB da Estação de Tratamento de Esgotos (ETE) de Itajubá-MG, e  suplementada com magnetita, em reatores em batelada operados a 35 °C (de Souza et  al., 2025). A dosagem de 120 mg L⁻¹ de magnetita apresentou maior produção média  de hidrogênio, de 4,144 mL H₂ g⁻¹ VS adicionado, com remoção de DQO de até  aproximadamente 85% e de sólidos voláteis de até 59%, e a análise estatística (ANOVA  e teste de Tukey) indicou diferença significativa em relação ao controle sem magnetita  (de Souza et al., 2025). Apesar disso, os rendimentos obtidos ainda ficaram abaixo dos  valores reportados para DF de diferentes substratos com aditivos à base de ferro,  sugerindo margem para otimização de rotas metabólicas e de condições operacionais,  como pH e tipo de aditivo (Taherdanak et al., 2016; Beckers et al., 2015; Nemestothy  et al., 2017). A transferência direta interespécies de elétrons (DIET) tem sido estudada  como estratégia para intensificar processos anaeróbios, por meio de materiais  condutivos, como óxidos de ferro (magnetita, Fe₃O₄), ferro zero-valente (ZVI, da sigla  em inglês Zero Valent Iron), nanopartículas de ferro e materiais carbonáceos  condutivos (biochar, carvão ativado, grafeno), que atuam como pontes eletrônicas entre microrganismos (Sun et al., 2015; Ren et al., 2016; de Souza et al., 2025).

Esses  aditivos podem acelerar a transferência de elétrons, favorecer rotas fermentativas  geradoras de H₂ e reduzir perdas de elétrons para vias consumidoras, como  metanogênese ou formação excessiva de solventes (Sun et al., 2015; Ren et al., 2016).  Além do desempenho técnico, a produção de bioH₂ a partir de FORSU está alinhada às  políticas nacionais de hidrogênio de baixo carbono, como o Programa Nacional do  Hidrogênio (PNH2) e a Política Nacional do Hidrogênio de Baixo Carbono, e pode  contribuir para a redução do custo nivelado de hidrogênio (LCOH), conforme análise  econômica apresentada para DF e PF com magnetita (de Souza et al., 2025; Crispim et  al., 2023). Também é relevante avaliar, ainda que de forma simplificada, a pegada de carbono da rota de DF com aditivos condutivos, considerando as emissões evitadas em  aterros e as associadas ao processo e aos próprios aditivos (Crispim et al., 2023; de  Souza et al., 2025).

DE SOUZA, G. C. et al. Assessment of the sequential dark fermentation and  photofermentation of organic solid waste with magnetite and substrate pre-treatment  aimed at hydrogen use. Fermentation, Basel, v. 11, n. 9, p. 516, 2025. DOI:  10.3390/fermentation11090516.

Ghimire, A.; Frunzo, L.; Pirozzi, F.; Trably, E.; Escudie, R.; Lens, P.N.; Esposito, G. A  review on dark fermentative biohydrogen production from organic biomass: Process  parameters and use of by-products. Appl. Energy 2015, 144, 73–95.

Ren, Y.; Si, B.; Liu, Z.; Jiang, W.; Zhang, Y. Promoting dark fermentation for biohydrogen  production: Potential roles of iron based additives. Int. J. Hydrogen Energy 2022, 47,  1499–1515.

Sun, Y.; Ma, Y.; Zhang, B.; Sun, H.; Wang, N.; Wang, L.; Zhang, J.; Xue, R. Comparison of  magnetite/reduced graphene oxide nanocomposites and magnetite nanoparticles on  enhancing hydrogen production in dark fermentation. Int. J. Hydrogen Energy. 2022,  47, 22359–22370

Taherdanak, M.; Zilouei, H.; Karimi, K. The effects of Fe◦ and Ni◦ nanoparticles versus  Fe2+ and Ni2+ ions on dark hydrogen fermentation. Int. J. Hydrogen Energy 2016, 41,  167–173.